Voss

Comentário ao livro “VOSS” de Patrick White
“Voss” é a obra mais famosa de Patrick White, um escritor australiano galardoado com o Prémio Nobel de Literatura de 1973. Publicado em 1957, alcançou um grande sucesso internacional, tendo vencido a primeira edição do Prémio Miles Franklin Literary Award. Mais tarde, foi adaptado a Ópera, tendo estreado no Festival de Adelaide, com a presença da Rainha Isabel II.
Patrick White era filho de agricultores australianos e os seus pais não queriam que ele enveredasse pela carreira de escritor. Mas a sua fraca saúde resultante da asma severa de que sofria desde criança não era favorável à vida no campo, pelo que pouco tempo passou com os pais, que tiveram de o deixar fixar-se em Londres e seguir a sua vocação. No entanto, os temas e as personagens dos seus livros são a Austrália rural e os fazendeiros australianos.
Naquele tempo, a Austrália era uma colónia penal para onde eram degradados facínoras de toda a espécie que, normalmente, depois de cumprirem a pena, ficavam a residir na Austrália, onde adquiriam uma parcela de terra, geralmente nos locais mais inóspitos e menos produtivos. Também, muitas vezes, esses ex-reclusos empreendiam expedições ao interior e atravessavam o deserto australiano à procura de terras que pudessem ocupar.
No caso deste livro, aparecem fazendeiros ricos emigrados de Inglaterra estabelecidos em bons locais, como os pais de Patrick White, e fazendeiros pobres estabelecidos nos tais locais de fraca produtividade, onde tinham uma vida miserável, muitas vezes com meia dúzia de cabeças de gado e um rebanho de filhos para criar. Havia também os comerciantes abastados que recebiam os produtos das explorações agrícolas, nomeadamente a lã, e os exportavam.
Todas estas personagens aparecem neste livro, cujo protagonista é Johann Ulrich Voss, um explorador alemão que aparece na Austrália para explorar o território. Depois de alguns anos de curtas aventuras de exploração, estava agora contratado para dirigir uma exploração ao interior desértico australiano, na qual era patrocinado por um grupo de comerciantes e agricultores locais. Nos poucos dias que passou em Sydney, conheceu Laura Trevelyan, sobrinha de um rico comerciante de tecidos e principal patrocinador da viagem de exploração. Laura era órfã, motivo pelo qual foi forçada a emigrar de Inglaterra para junto dos tios na Austrália.
Laura e Voss simpatizaram um com o outro e apaixonaram-se. Entretanto, a viagem começou e foram trocando correspondência, que fazia crescer o amor mútuo. Ao longo da viagem, Voss entrou em contacto com os fazendeiros locais previamente contratados para lhe dar apoio e tudo foi correndo dentro do previsto, até que se encontrou com Judd, o seu último contacto antes de entrar no deserto. Tratava-se de um pobre e rude fazendeiro que se prontificou para integrar a expedição. E foi a partir daí que tudo começou a correr mal. As dificuldades da viagem, aliadas à impreparação de Voss para a dirigir, ao mau caráter de Judd e às divisões que ele provocou entre os membros da expedição, provocaram o falhanço total da iniciativa, da qual parece não ter havido sobreviventes.
A sinopse diz que este romance é baseado na vida real do explorador Ludwig Leichhardt, um prussiano contratado para traçar o mapa do deserto central australiano, que desapareceu nele sem deixar rasto. Foi sensivelmente o que aconteceu a Voss e aos membros da sua expedição.
Entretanto, Laura aguardava ansiosamente as cartas de Voss que começaram a escassear até desaparecerem completamente. Estes amores representam algo do pouco positivo que há nesta história rude, triste, por vezes mesmo cruel. De qualquer modo, é um livro que vale a pena ler, porque nos traça um retrato da Austrália daquela época e dos colonos que a ocupavam. Aflora também ligeiramente os indígenas, as suas crenças e o seu modo de vida, através dos contactos destes com os membros da expedição de Voss.