Os Loucos da Rua Mazur

Comentário ao livro “OS LOUCOS DA RUA MAZUR” de João Pinto Coelho
Muito tem sido escrito sobre a Segunda Guerra Mundial. É talvez o tema que tem inspirado mais livros e de todos os tipos, desde grandes volumes de História a teses de uma grande variedade de áreas do conhecimento. Também a ficção já inspirou grande quantidade de obras e também de vários géneros literários. E, quando julgamos que já nada de novo nos pode ser contado, que já nada nos vai impressionar, surge este livro, com uma história que é um demolidor “murro na barriga” de qualquer leitor.
Vamos por partes.
Antes de mais, é uma denúncia da natureza humana. Para mim, não foi novidade, porque há muito estou convicto de que o ser humano nasce mau e só as convenções sociais e morais têm conseguido contrariar esta tendência natural para a maldade. O ser humano não pode ser livre de fazer o que a sua natureza lhe ditar, porque esta só lhe aponta caminhos de destruição e morte, eliminação fria dos adversários, ganância, insaciabilidade de poder e de glória. A religião tem sido o contrapeso deste “lado negro” da raça humana e, por alguma razão, os nossos antepassados, desde há muito milénios, sentiram necessidade de criar deuses castigadores, que impõem regras severas com punições exemplares para aqueles que delas se desviarem, sejam sofrimentos infernais para toda a eternidade, seja a reencarnação como o mais repugnante animal que se possa imaginar, ou outro castigo qualquer. Na minha opinião, este é o principal tema deste livro, embora bem camuflado por uma história muito bem contada.
O segundo ponto que desejo realçar é que não há ditadores que o sejam sozinhos. Muitas vezes, o ditador é tão só o catalisador de um sentimento coletivo que apenas precisa de um pretexto para levar comunidades inteiras, países aparentemente muito civilizados e evoluídos a enveredar por caminhos inimagináveis e, aparentemente, fora daquilo que seria de esperar. A democracia no seu verdadeiro sentido é oposta à natureza humana. Partilhar, ser solidário, aceitar os direitos alheios, obedecer a regras, cumprir leis são coisas antinaturais. É por isso que é tão fácil alienar multidões, é por isso que os extremos do espetro político são tão atraentes, é por isso que é tão fácil implantar e manter ditaduras. Ser pacífico recalca e a violência liberta. Foi o que aconteceu na aldeia que o autor nos apresenta. A breve passagem pelo regime de Estaline veio quebrar as regras da artificial boa convivência e a sua substituição pelas tropas de Hitler não passou do pretexto para a explosão dos instintos mais primários que habitam o coração humano.
Então, que história este livro nos apresenta? Passa-se no nordeste da Polónia, numa qualquer aldeia como outras que havia nesse País, na qual conviviam em boa harmonia uma comunidade de cristãos e outra de judeus, cada uma com os seus bairros, os seus chefes, as suas crenças e tradições, os seus contributos para a satisfação das necessidades comuns. Aparentemente, era o melhor dos mundos, mas todos reprovavam misturas e se consideravam melhores do que os da outra comunidade. Tudo isto foi destruído de um dia para o outro e a presença das forças invasoras deu o pretexto para a barbaridade vir ao de cima e a loucura chegar a extremos inimagináveis.
No meio disto tudo, há sempre as exceções à regra e os que ousam ser diferentes são as maiores vítimas. Sessenta anos depois, ainda se vivem os traumas do que aconteceu naqueles dias loucos e os protagonistas sentem a necessidade de sarar as suas feridas antes que a morte os apanhe nas suas garras e os impeça de morrer em paz, não só com os outros, mas especialmente consigo próprios.
É um livro muito bem escrito que merece bem o Prémio Leya com que foi galardoado. Literariamente está bem construído, com personagens fortes e bem caracterizadas, cenários plausíveis e bem integrados na época. O leitor vai sendo inserido na trama paulatinamente, a tragédia vai crescendo perante os nossos olhos e o auge é atingido na última página, aquela em que o leitor tem mesmo de se comover. Não tenho vergonha de dizer que, após a última linha, fiquei sem palavras, fortemente comovido e não pude conter as lágrimas.
Mas o que mais me fez sofrer foi a maldade humana, as suas consequências e como somos mesquinhos, tão pequeninos, mas tão prepotentes, como podemos descer tão baixo. Não vi aqui Hitler’s nem Estaline’s, vi o homem comum dar largas ao seu lado mais animalesco, mais básico, mais irracional. Que este livro seja um alerta para a onda de fundamentalismos, de renascimento de ideologias extremistas de esquerda ou de direita que estamos a ver crescer nos dias que vivemos. Não é preciso muito: basta recuarmos ao princípio deste século, para vermos como, há somente 17 anos, acharíamos impossível que certas ideologias que hoje estão a governar ou em vias de vencer eleições pudessem deixar de ser pequenas franjas sem expressão e muito afastadas do poder.
Comentário escrito em 18 de dezembro de 2017
