Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

Os Indiferentes

Vibarao, 06.01.25

Os Indiferentes_Alberto Moravia.jpg

OS INDIFERENTES de Alberto Moravia

Publicado em 1929, “Os Indiferentes”, obteve imediatamente uma boa aclamação da crítica e foi considerado uma das experiências mais interessantes da ficção italiana da época, pois mostrava a decadência e o colapso da burguesia italiana durante o regime fascista. Foi o primeiro romance existencialista italiano, que participava do nascente clima existencialista europeu, com uma história concreta, enraizada num contexto histórico real e atual.

Este, que foi o primeiro romance de Alberto Moravia, conta a história de uma família cujos membros, ligados por uma história de corrupção e cobardia, são derrotados pela sua apatia, pela total ausência de orgulho e de dignidade moral.

A trama, circunscrita a quarenta e oito horas e com uma escrita próxima da linguagem teatral, apresenta os comportamentos de cinco personagens  e as relações que se estabelecem entre eles: de prepotência e falsa consciência, por um lado, e de abulia e de mortífera insatisfação, pelo outro, características que Alberto Moravia via na burguesia urbana, a classe a que pertencia, durante o regime fascista de Mussolini.

Mariagrazia, a mãe, Carla, a filha, e Lisa, a amiga, eram demasiado superficiais e egoístas para serem capazes de sair do atoleiro em que se deixaram enredar pelo oportunista, sovina e mulherengo Leo Merumeci que disso se aproveita. Michele, o filho, é demasiado indolente, indeciso e desajeitado; cada vez que tenta agir para salvar a família, tudo lhe é indiferente. Leo é o herói negativo do romance, que se aproveita das fragilidades dos outros quatro para conseguir os seus fins, sejam a exploração sexual das três mulheres, sejam a fraqueza do jovem rapaz e a pressão que sobre ele exercem as próprias mulheres da história. Todos sabem que caminham irremediavelmente para a miséria humana, moral, social e financeira, mas a tudo se sujeitam para não perder a pose a que as obriga o estatuto social de classe.

Desengane-se o leitor que espera um final feliz. Não é esse o caminho trilhado pela escrita existencialista e decadentista de Moravia. Todos querem salvar-se, mas nenhum vai ser capaz de pôr em prática as suas boas intenções.

Estes personagens são o protótipo da sociedade que Moravia quer retratar. Moravia mostra de uma forma violenta o comportamento de uma sociedade que caminhava numa rota acelerada para a autodestruição: por um lado, uma burguesia que dominava a Itália fascista e a Europa em geral e, pelo outro lado, um povo apático, desiludido, abatido, enganado, que se deixava voluntariamente dominar.

Muita coisa mudou desde o início da década de 1930, quando o livro foi escrito. Mas parece-me que, neste quase um século que passou, não se aprendeu nada e as doutrinas extremistas, tanto de um lado como do outro do espetro político, ganham cada vez mais espaço na sociedade mundial e a população abdica da sua força, desiste e entrega-se nas mãos daqueles que a querem sugar. “Os Indiferentes” é um romance amargo, mas simultaneamente redentor, na medida em que representa uma ‘pedrada no charco’ e um importante alerta que pode fazer a diferença.

 

Aviso

© Todas as publicações são propriedade do autor. Proibida a sua reprodução total ou parcial não autorizada.

2 comentários

Comentar post