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Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

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Os Dez Espelhos de Benjamim Zarco

Vibarao, 18.10.22

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Comentário ao livro “OS DEZ ESPELHOS DE BENJAMIM ZARCO” de Richard Zimler

Este é o quinto volume de uma série de Richard Zimler sobre a família Zarco, uma família de judeus sefarditas portugueses que saíram do País no início do séc. XVI, para fugir à Inquisição. É difícil eleger qual o melhor volume, mas "Os Dez Espelhos de Benjamim Zarco" não é inferior aos anteriores e, na minha opinião, deixa o caminho aberto para uma continuação, se o autor o puder e quiser fazer. Os seus fiéis leitores gostariam...

Para situar o leitor que ainda não tenha lido os livros anteriores, começo por um breve resumo cronológico dos volumes anteriores:

"O Último Cabalista de Lisboa" marca o início do êxodo da família. A personagem principal é Berequias Zarco que fugiu de Lisboa quando a Inquisição chegou e todos os judeus foram transformados à força em cristãos e vai ser o investigador do que se passou realmente com o seu tio Abraão Zarco, um famoso cabalista e iluminador que residia no bairro lisboeta de Alfama, que não foi morto e queimado na horrorosa caça aos Judeus da Páscoa de 1506, mas apareceu degolado na sua própria casa, em circunstâncias misteriosas.

"Goa ou o Guardião da Aurora" foi o terceiro volume a ser publicado, mas situa-se temporalmente antes do segundo. A personagem principal é Tiago Zarco, um bisneto de Berequias que vivia em Goa nos finais do séc. XVI e princípios do séc. XVII. Ali a Inquisição era muito ativa nessa época e perseguia como hereges tanto os hindus como as outras religiões não cristãs. Tal como os outros livros, este é escrito na primeira pessoa por Tiago e ali conta, entre outras situações, que a sua família tinha um manuscrito secreto de Benjamim Zarco que narra o genocídio de Lisboa e se chama "O espelho que sangra". Veremos, mais tarde, o valor deste manuscrito.

"Meia-Noite ou o Princípio do Mundo" passa-se no séc. XIX e a maior parte da história é situada no Porto, em Portugal. Aqui o narrador é John Zarco Stewart, filho de mãe judia e pai escocês. Apesar dos séculos passados e a Inquisição ter sido extinta há muito tempo, continua a haver na sociedade uma animosidade contra os judeus e o espírito inquisitorial ainda está muito vivo. A mãe mantém as tradições judaicas da família Zarco, mas o pai é agnóstico e John só teve realmente consciência da sua condição de judeu já muito tarde. O pai trouxe das suas viagens de negócios um negro conhecido por Meia-Noite que ficou a servir na família e se tornou o grande amigo e confidente de John, quase um segundo pai. Era um escravo liberto e o livro vinca muito bem o paralelismo da situação social dos judeus com a dos ex-escravos.

“A Sétima Porta” passa-se desde a subida de Hitler ao poder em 1932 e vai até à Segunda Guerra Mundial. Narra como Isaac Zarco conseguiu salvar muitos judeus, ciganos, deficientes e outras pessoas de serem vitimadas pelo regime nazi.

Chegamos, assim, a "Os Dez Espelhos de Benjamim Zarco" cuja história se inicia durante a Segunda Guerra Mundial. Neste livro, o narrador principal é Ethan "Eti", neto de Benjamim "Benni" Zarco, um dos dois membros da família que não morreram nos campos de concentração nazis. O outro foi o seu tio Shelly. Mas a primeira grande diferença deste livro em relação aos anteriores é que Eti só conta o princípio e o fim da história. Pelo meio, há outros narradores que nos fazem reviver a sua experiência e o papel que desempenharam nas diversas etapas por eles vividas, desde 1943 em Varsóvia, até à atualidade nos Estados Unidos e Canadá. Não se trata de mais um livro sobre o Holocausto Nazi, pois se debruça sobre uma família em especial e é tudo ficção, à exceção, naturalmente, dos lugares e dos tempos em que acontece. Mas reproduz com muita fidelidade o que aconteceu com muitas famílias reais vitimadas neste conflito, das quais poucos ou nenhuns membros terão sobrevivido.

No início deste comentário, deixei em aberto uma apreciação sobre se este seria um livro melhor ou pior do que os anteriores. Agora vou mais longe e não tenho dúvidas de que, a ter de eleger algum, será este o melhor dos cinco. Antes de mais, pelo facto já apontado, de ter diversos narradores (concretamente cinco), o que torna a narrativa menos monótona e os estilos mais variados. Na prática, quase poderíamos chamar a este livro uma antologia de contos, não só pela diversidade de narradores, mas pela quase independência dos seis capítulos, não fosse o caso de se completarem mutuamente e comporem, no final, uma só história. Além disso, estes capítulos não seguem uma ordem cronológica. Basta dizer-se que o início da história está no penúltimo capítulo, onde George, um índio navajo também ele vítima e psicologicamente destroçado pelo conflito nazi, conta como ele e Shelly foram à Polónia depois da guerra, para localizar e trazer Benni para a América.

Mas, na minha opinião, o melhor deste livro é a qualidade das suas personagens. Podemos dizer que não há personagens menores, pois todas elas desempenham um papel crucial na história e estão muito bem caracterizadas. Podia aqui referir muitas delas, mas limito-me a destacar algumas que são inesquecíveis e parecem pessoas reais. Para além de Shelly e Benni, os dois sobreviventes da família Zarco, destaco, antes de mais, a avó Rosa, a guardiã das tradições da família e da sua origem portuguesa, que se entregou nas mãos dos nazis, para salvar o neto Benni; Ewa Armbruster, uma cristã que arriscou a sua vida ao esconder a criança judia Benni na sua casa; George, o navajo militar do exército americano e traumatizado de guerra, que dedicou a sua vida à família Zarco. Podia também citar os descendentes dos Zarco que garantem no século XXI que a família Zarco continua e continuará.

Qual a razão dos "Dez Espelhos"? Porquê este título? Lembram-se de me ter referido, a propósito de "Goa ou o Guardião da Aurora" ao "espelho que sangra"? Poderá estar aí a chave para a decifração do enigma. Mas, para o saber, terá de ler o livro.

Publicado no Segredo dos Livros em 19 de novembro de 2018

 

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