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Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

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Os cavalos também se abatem

Vibarao, 16.07.25

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Os cavalos também se abatem de Horace McCoy

“Os Cavalos Também se Abatem”, publicado originalmente em 1935, é uma das obras mais poderosas, mais negras e mais devastadoras da literatura norte-americana. Situado no contexto da Grande Depressão, o livro oferece um retrato cru da vulnerabilidade humana, da luta pela sobrevivência e do vazio existencial de uma sociedade à deriva.

A narrativa gira em torno de Robert Syverten e Gloria Beatty, dois jovens desesperados que se inscrevem numa maratona de dança em Los Angeles, na esperança de ganhar um prémio monetário que poderia mudar as suas vidas ou, pelo menos, despertar a atenção de qualquer personalidade do mundo do cinema que lhe dê uma chance de entrar nesse mundo de sonho. O concurso, porém, revela-se uma metáfora viva do desespero coletivo: centenas de participantes, exaustos fisicamente e destruídos psicologicamente, dançam até ao esgotamento total, sob o olhar impiedoso de um público ávido de entretenimento e completamente alheado do sofrimento daquelas pessoas.

O cenário opressivo e repetitivo da maratona transforma-se numa espécie de microcosmos infernal, onde as fronteiras entre espetáculo e sobrevivência se esbatem e os concorrentes são reduzidos à sua dimensão mais primária.

McCoy constrói personagens de grande complexidade psicológica. Gloria Beatty, em particular, destaca-se como um símbolo da mulher desesperada, farta da vida, mas incapaz de provocar a sua própria morte. O seu niilismo profundo e o desencanto perante a vida tornam-na um retrato trágico da geração perdida daquela época, que ficou na história dos Estados Unidos da América como uma das mais negras da sua história.

Robert Syverten, o par de Glória, que acabou de conhecer, move-se entre a resignação e a tentativa de encontrar um sentido num mundo que insiste em negar-lhe qualquer esperança. Aqueles longos dias e noites vão construindo entre eles uma relação marcada por uma cumplicidade amarga, onde a empatia se mistura com o desencanto e onde são encaminhados, inevitavelmente, para a tragédia que, aliás, é anunciada na primeira página do romance, quando Robert está a ser julgado pelo assassínio de Glória. Mas que podia ele fazer, perante o pedido irrecusável desta? Não é verdade que os cavalos também se abatem, quando se tornam inúteis? Como pode um ato de misericórdia ser considerado crime?

O estilo de McCoy é seco, direto, quase cortante, desprovido de floreios estilísticos. A narração vai intercalando passagens da sentença, provocando uma tensão constante e antecipando o desfecho trágico inevitável. Tal estrutura narrativa imprime ao texto um ritmo implacável, um pulsar constante de angústia e de ansiedade.

A prosa minimalista casa na perfeição com o ambiente sem esperança e com a degradação física e moral dos participantes na maratona. O autor utiliza diálogos incisivos e descrições sucintas para traduzir a exaustão e o desencanto, sem nunca recorrer ao melodrama.

Entre os temas que atravessam o romance, destacam-se a alienação, a exploração do sofrimento para fins de espetáculo, o desespero social e a ausência de sentido existencial. “Os Cavalos Também se Abatem” é, à sua maneira, uma reflexão sobre o preço da esperança numa sociedade indiferente ao sofrimento alheio, e sobre o limite da resistência humana perante a adversidade.

O título, por si só, é uma metáfora pungente: tal como os cavalos exaustos são abatidos quando já não servem, também os humanos são descartados quando deixam de ser úteis ou, simplesmente, se tornam incapazes de entreter uma sociedade fria e desumanizada.

O romance de McCoy foi adaptado ao cinema em 1969 por Sydney Pollack, com Jane Fonda e Michael Sarrazin nos papéis principais, consolidando o estatuto de obra de culto do livro, que estava injustamente um pouco esquecido. A crítica reconhece nesta obra uma das mais lúcidas e inquietantes denúncias dos mecanismos de desumanização da sociedade capitalista.

“Os Cavalos Também se Abatem” mantém-se atual, convocando o leitor a refletir sobre a natureza do sofrimento, a procura de dignidade e a fronteira ténue entre espetáculo e luta pela sobrevivência.

Em suma, Horace McCoy criou, com “Os Cavalos Também se Abatem”, um romance implacável e profundamente humano, que permanece como testemunho pungente da condição humana em tempos de crise. Uma leitura obrigatória para quem procura compreender a fragilidade, a resistência e a inquietação que habitam o ser humano em face do absurdo.

 

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