O Deus das Moscas Tem Fome

Comentário ao livro “O DEUS DAS MOSCAS TEM FOME” de Luís Corte Real
Admitindo que alguém menos familiarizado com o mundo dos livros em Portugal não o conheça, começo por informar que o autor deste livro, Luís Corte Real, é o fundador e editor da Saída de Emergência, uma editora que há quase 20 anos se dedica à literatura de fantasia em Portugal. Foi ele que lançou no nosso País, por exemplo, a escritora Nora Roberts com extraordinário sucesso. Foi ele que criou a mítica coleção “Bang!” e a “Revista Bang!”, uma revista semestral gratuita dedicada à fantasia, ficção científica e horror. Foi ele que editou entre nós sagas como “As Crónicas de Gelo e Fogo”, “Predadores da Noite”, “Sangue Fresco”, “Casa da Noite” ou “The Witcher”, o mais recente sucesso, entre muitas outras.
Pois Luís Corte Real resolveu concretizar um sonho antigo: lançar a sua própria saga de horror. E em boa hora o fez, porque este primeiro livro de “Benjamim Tormenta”, o Detetive do Oculto que se passeia pelas ruas de Lisboa em pleno século XIX e resolve os estranhos casos de polícia que mais ninguém consegue resolver, é positivamente uma obra de arte, digna de um Lovecraft, um Conan Doyle, um Bram Stoker, um Clive Barker ou um Stephen King.
“Benjamim Tormenta” poderia ser uma fusão de personagens como Hellboy e John Constantine, à mistura com os deuses/demónios da mitologia Cthulhu de H.P. Lovecraft. Mercê das suas extraordinárias aventuras no Oriente, Benjamim Tormenta ostenta na sua pele estranhas tatuagens cuja origem nem ele próprio conhece e no seu interior uma “Serpente” que é nada menos do que um demónio ancestral com muitos milénios de existência e que já habitou outros humanos antes de Tormenta. Simultaneamente um empecilho e um precioso auxiliar nas suas investigações, a “Serpente” tem uma língua viperina sempre incómoda e inconveniente para Benjamim. Certo é que, fruto dos casos que consegue resolver quando a polícia já perdeu todas as esperanças, Tormenta torna-se imprescindível e o último recurso de Sua Majestade o Rei D. Luís quando tudo o mais falha e Portugal corre sérios riscos.
Este primeiro volume que, espero, vai ter continuação, para alegria dos amantes do género no nosso país (e quem sabe um dia lá fora), é formado por seis contos. Os dois primeiros são essenciais para ficarmos a conhecer Benjamim Tormenta e o mundo em que ele se move.
O primeiro ocorre em Macau, onde Tormenta se vai defrontar com uma poderosa bruxa jiangshi que, como humana, é conhecida como madame Wei Wan e é a chefe secreta da “Irmandade da Serpente Verde” que domina o submundo em Macau e se vai tornar na grande adversária de Benjamim Tormenta. Vê-la-emos de novo ativa no último conto do livro a tentar lançar a atividade da Irmandade em Lisboa, com a feroz oposição do nosso herói.
O segundo conto que dá o nome ao livro é também fundamental para construirmos o mundo de Benjamim Tormenta. Aqui ficaremos a conhecer quem é na verdade a “serpente” diabólica que habita Tormenta e se vai enfrentar com outro poderoso e antiquíssimo demónio que um grupo de estudantes trouxeram inadvertidamente do Egito, escondido num grimório “um recetáculo de saberes banidos e malditos (…) um livro que nunca devia ter existido” (Pág. 66).
Os restantes contos são igualmente histórias horrorosas, cheias de ação, mistério e aventura, que um leitor apreciador do género, como eu, não vai conseguir largar antes de chegarem ao fim.
Como escreveu no prefácio Luís Filipe Silva, um dos melhores autores de ficção científica do nosso país, “estamos perante um fenómeno único na História, não só da literatura fantástica nacional, como da própria literatura portuguesa: temos finalmente o nosso detetive do oculto! (…) Luís Corte Real é uma voz que tem tardado a ouvir-se na ficção com uma obra de substância. (…) Esperemos que os leitores e o mercado estejam atentos ao acontecimento, e lhe deem a merecida aclamação.”
Apoio, bato palmas e este comentário é a minha contribuição para que brevemente possamos ver nas montras das livrarias portuguesas mais aventuras de Benjamim Tormenta, o detetive português do oculto.