Morreram Pela Pátria

Comentário ao livro “Morreram pela Pátria” de Mikhail Sholokhov
Sholokhov foi um escritor russo apoiante do regime da URSS, contrariamente à generalidade dos escritores dissidentes mais conhecidos nos países do Ocidente, que ficou famoso pelas obras monumentais “O Don Tranquilo” e “Terras Desbravadas”.
Mas, pelo meio, Sholokhov foi escrevendo contos e novelas menos conhecidos, mas igualmente importantes. Um deles é a novela “Morreram pela Pátria”, editada em 1959. Neste pequeno livro, Mikhail Sholokhov narra a tragédia de um regimento russo quase completamente dizimado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial, do qual sobrou uma pequena coluna comandada por um capitão, dado que todos os oficiais superiores tinham morrido.
Num ato de heroísmo, conseguiram salvar a bandeira do regimento e, durante três dias, foram recuando em direção às margens do Don, resistindo aos sucessivos ataques da aviação alemã e do exército perseguidor, em trincheiras improvisadas e sobrevivendo do que encontravam nas aldeias e explorações agrícolas coletivas, que eram abandonadas na fuga das populações. Nos vários combates ao longo desses dias, os sobrantes foram morrendo, mas também infligindo grandes baixas ao inimigo, tendo chegado ao Don somente 27 homens válidos e 5 feridos, comandados por um sargento-ajudante.
A tragédia acabou em epopeia, quando os sobreviventes do 38º regimento se apresentaram ao comandante da divisão, o coronel Martchenko, também ele gravemente ferido, que, cambaleante, lhes passou revista numa pequena aldeia nas margens do Don, onde funcionava o comando, e falou: “Soldados, a pátria de Estaline não esquecerá jamais o que fizestes nem o que sofrestes. Obrigado por tornardes a trazer a bandeira!” (…) “O inimigo pode hoje orgulhar-se das batalhas ganhas, mas a guerra seremos nós quem a há de ganhar. Levareis a vossa bandeira até ao coração da Alemanha.”
Vale a pena ler “Morreram pela Pátria” para tomar contacto com a escrita do autor de “Don Tranquilo”, enquanto não se ganha coragem ou se arranja tempo para embarcar na leitura da grande epopeia. É um exemplo de coragem, de resiliência, daquilo a que o ser humano é capaz de resistir, quando estimulado por um grande objetivo, nem que seja preservar a honra de uma bandeira, neste caso a bandeira de um regimento célebre, vencedor de muitas batalhas no passado.
Sholokhov é um escritor russo nascido em 1905 na região do rio Don, que tinha, portanto, 12 anos quando os bolcheviques tomaram conta do poder e instauraram o comunismo da Rússia. O conflito chegou à sua região no ano de 1918 e Sholokhov, com 13 anos, abandonou os estudos e aderiu à revolução. Enfileirou no contingente bolchevique e passou os anos seguintes a lutar na guerra civil. Aos 17 anos, foi para Moscovo com o sonho de se tornar escritor. Exerceu várias profissões e, nos tempos livres, frequentava seminários para escritores, tendo publicado artigos e contos na imprensa. Cinco anos depois, regressou ao seu Don natal, onde viveu até ao fim da vida, e começou imediatamente a escrever as suas duas obras gigantescas.
Na verdade, Sholokhov dedicou 40 anos a escrever “O Don Tranquilo” publicado em quatro volumes que lhe mereceu o Prémio Estaline em 1941, e os 20 anos seguintes a escrever “Terras Desbravadas” publicado em dois volumes e que lhe mereceu o Prémio Lenin em 1960. Estas são as suas maiores e mais famosas obras, especialmente “O Don Tranquilo”, o livro mais lido da ficção russa de todos os tempos, incluindo “A Guerra e Paz” de Tolstoi, no qual se inspirou, e que terá sido decisivo para a atribuição do Prémio Nobel de Literatura em 1965.