Marianna Sirca

Comentário ao livro “MARIANNA SIRCA” de Grazia Deledda
A autora deste livro, Grazia Deledda, nasceu na Sardenha e ali viveu até se casar aos 29 anos e se mudar para Roma. Pertencia a uma família da pequena-burguesia e a casa de família estava construída numa encosta muito arborizada numa zona rural e com uma vista deslumbrante, onde convivia com os pastores que por ali pastoreavam os seus rebanhos. Também por ali circulavam grupos organizados de bandidos que se escondiam nas florestas e se acoitavam em cavernas, vivendo de assaltos a vivendas e às explorações agro-pastoris da região. Ainda muito nova começou a escrever para alguns periódicos regionais e tinha pouco mais de vinte anos quando foi convidada para fazer uma recolha sobre as lendas da Sardenha, que foi publicada numa revista. Este trabalho veio a ter um importante papel em toda a sua obra de romancista, pois todos os seus livros têm a Sardenha como cenário e os seus costumes, tradições e lendas como base das tramas das suas obras. São baseadas quase sempre em histórias tradicionais que se contavam ao serão, muitas delas sobre paixões avassaladoras que acabam em tragédia, ou em superstições que passavam de geração em geração e condicionavam a vida dos habitantes, especialmente nos meios rurais e mais tradicionalistas.
É o caso de “Marianna Sirca”, um dos seus romances da fase mais amadurecida, com uma maior riqueza lexical e maior musicalidade do que os livros da sua juventude. É, sem dúvida, uma das suas obras-primas.
A trama do romance gira à volta da personagem Marianna Sirca e dura cerca de um ano. Marianna era uma mulher de cerca de trinta anos, que fora enviada em criança para casa de um tio padre, onde cresceu e foi educada. O seu pai era uma espécie de feitor do irmão, tomando conta das suas vastas propriedades. O seu sonho era ver a filha herdar a fortuna do tio, o que veio na verdade a acontecer, para arrelia dos outros sobrinhos. Como o tio esteve acamado nos dois últimos anos de vida, Marianna ficou bastante abalada depois da morte deste. Foi por isso que, no início do verão, depois de arrumar todos os assuntos burocráticos com a herança, resolver aceitar a sugestão de ir passar algum tempo à sua casa de campo, o que a ajudou a recuperar. Ali nasceu e decorreu o drama que percorre o livro e terminou em tragédia, muito ao género das histórias tradicionais “de faca e alguidar” que a autora bem soube aproveitar para as suas obras.
Trata-se de um triângulo amoroso entre Sebastiano, um primo de Marianna que era viúvo e bastante mais velho do que ela e sonhava reconquistar as propriedades perdidas através do casamento com a prima, e Simone, um antigo criado da quinta, sensivelmente da idade de Marianna e seu apaixonado no tempo em que eram crianças, que agora é um dos bandidos escondidos na floresta que vivem de roubos e assaltos, lançando o terror entre os camponeses. Ela apaixona-se pelo ex-criado e ele por ela; ela está disposta a passar pelo vexame que tal relacionamento lhe vai trazer, mas exige como contrapartida a única coisa que Simone possui: a sua liberdade. Ele devia entregar-se às autoridades, casavam, ele cumpriria a pena a que fosse condenado e ela ser-lhe-ia fiel e aguardaria o tempo que fosse necessário para serem felizes. Será que Simone está disposto a aceitar tal acordo? Por outro lado, como vai Sebastiano reagir?
Como se vê, uma história que tem tudo para prender o leitor do início ao fim. Ainda por cima, escrita com a simplicidade e o realismo característicos da escrita de Grazia Deledda, com a beleza dos campos da Sardenha como fundo.