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Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

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Lisboa Noir

Vibarao, 01.07.24

Lisboa Noir_Luís Corte-Real.jpg

Comentário ao livro “Lisboa Noir” de Luís Corte-Real

Com muito atraso, não por falta de vontade, mas por falta de tempo, consegui ler esta obra do nosso querido Luís Corte-Real.  E aqui estou para dar conta da minha opinião sobre esta sua terceira obra.

“Lisboa Noir” não segue a linha das anteriores obras, em que o herói é o tenebroso detetive do oculto Benjamim Tormenta, embora tenha como protagonista outro não menos improvável detetive. Pode enquadrar-se no subgénero da fantasia conhecido por distopia, embora não se refira a um futuro mais ou menos distante, mas sim a um passado não muito distante. Eu explico:

Tal como os livros sobre Benjamim Tormenta, este é um conjunto de contos interligados, situados na mesma época e com personagens principais comuns. Não se passa, porém, no século XIX, mas sim no século XX, mais propriamente no “ano louco de 1928”, como se assinala na capa. E que ano foi esse em Portugal?

Na história real, foi o ano em que Salazar assumiu o poder e instaurou o regime a que chamou “Estado Novo”, mas toda a gente chama de “ditadura de Salazar”. Todos sabemos minimamente o que aconteceu:  a revolução militar de 28 de maio de 1926 acabou com a primeira República e manteve-se com avanços e recuos até que, em 1928, desceu de Coimbra à capital António de Oliveira Salazar para tomar conta da pasta das Finanças e, desde logo, se assumiu como o “salvador da Pátria”. Em 1933, impôs uma nova Constituição talhada à sua medida que institucionalizou o “Estado Novo”. E logo começaram a ser criadas as estruturas destinadas a eternizar o regime no poder, de modo especial a polícia política, a censura e as milícias controladas pelos cabecilhas do regime.

É neste “ano louco” de 1928, com todas estas estruturas ditatoriais, que Luís Corte-Real ambienta esta coleção de histórias, mas partindo de um pressuposto absolutamente diferente, baseado numa ideia simples: - E se as lutas liberais tivessem sido vencidas por D. Miguel e não pelo seu irmão D. Pedro IV?  Ou, por outras palavras, tivessem sido ganhas pelos absolutistas, em vez dos liberais?

Assim, D. Miguel I, o Pai da Nação, acaba com o parlamentarismo, implanta o absolutismo e cria as estruturas que julga necessárias para a defesa do regime, como milícias, tropas de elite, polícia secreta, etc. Sucede-lhe seu filho D. Miguel II que unifica o reino de Portugal, com os de Espanha e Brasil, vence a Inglaterra na Guerra do Ultimato, desenvolve a indústria nacional, torna Lisboa na maior metrópole do mundo, cercada pelas também maiores favelas do mundo, e implanta o sonho de Portugal o “Quinto Império”. Há um ano sucedeu-lhe o seu ambicioso e depravado filho D. Miguel III, após a sua morte em circunstâncias muito mal esclarecidas. Lisboa, mais que nunca, é uma cidade a saque: o Rei e os milionários a ele afetos dominam o poder; negócios ilícitos dominados por máfias de imigrantes vindos de todas as partes do mundo campeiam pela cidade e arredores; o Sindicato do Crime mantém a população aterrorizada; e as milícias do regime não aterrorizam menos.

É este o ambiente em que se movimentam as personagens deste livro: Ulisses Garcia, anão e detetive privado, que entra na posse de um anel vermelho que lhe traz poder, mas inimigos implacáveis que lutam por reavê-lo; “Sem Pavor”, o justiceiro secreto, tipo Homem-Aranha à portuguesa, em quem todos põem a sua esperança; e a apaixonada habitual dos super-heróis, a jornalista Lana Bronze que, no final, consegue roubar o seu beijinho por baixo da máscara que cobre o rosto de “Sem Pavor”, depois deste a arrancar das mãos dos vilões.

 Como é habitual nos livros de Luís Corte-Real, há um conto escrito por um autor convidado. Desta vez, foi Sónia Louro, que nos deixou uma história de que gostei muito. Para além de estar bem integrado no conjunto de histórias que compõem a obra, este conto introduz com grande oportunidade um nome (mais propriamente uma multidão de nomes) muito importante na época e também ele ligado ao mito do Quinto Império. Falo de Fernando Pessoa e alguns dos seus heterónimos, mormente os mais ligados a este mito.

Quanto ao estilo de Corte-Real, é outra obra que não se afasta das anteriores: uma escrita que mistura suspense com ironia, fantasia com ficção científica e, embora com mais moderação, horror com crueldade. Quero também salientar que, mais uma vez, mostra um grande trabalho de documentação e recolha de informação sobre a época em que situa a trama romanesca. E soube construir um cenário alternativo credível para a história de Portugal, assente sobre a história real do nosso País no mesmo lapso de tempo, ou seja, entre os anos vinte do século XIX e os anos vinte do século XX.

 

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