Jean-Christophe

Comentário ao livro “JEAN-CHRISTOPHE” de Romain Rolland
“Jean-Christophe” é uma obra gigantesca de Romain Rolland, um escritor francês que ganhou o Prémio Nobel de Literatura de 1915. Publicada inicialmente em 10 volumes entre os anos de 1904 e 1912, está editada em Portugal pela Livros do Brasil em 5 volumes, numa edição de 1966, destinada a celebrar o centenário do nascimento do autor. O 1º volume reúne os três primeiros livros da edição original e foi só este, por enquanto, o único volume que li.
Diz a sinopse: “Dentre as obras de Romain Rolland, avantaja-se Jean-Christophe, destacando-se pela grandiosidade da sua concepção, como um painel imenso que resume as ideias, factos e sentimentos do mundo intelectual e artístico dos fins do século XIX e começos do século XX. O herói é o símbolo do génio que luta contra todos os aspectos da mediocridade na vida e na arte, sacrificando-se por um ideal que há-de redimir a espécie humana. A vitalidade artística das suas personagens é imensa, desde os primeiros capítulos, onde a infância de Jean-Christophe e o ambiente em que se cria são descritos com uma naturalidade e eficácia sem par, até aos últimos, que coroam a sua dolorosa ascensão através de todas as dificuldades que amarguram a triste existência humana”.
Assim é, de facto. Neste primeiro volume estão, como já disse, os três primeiros livros. O primeiro “O Alvorecer” narra a infância de Jean-Christophe. Nascido numa família de músicos, a sua mãe destoava, pois era uma vulgar empregada doméstica quando se casou com o seu pai, um jovem violinista já muito conceituado. Ele próprio não sabia explicar porque a escolheu para esposa, deixando muitas meninas de boas famílias desiludidas. No entanto, ela era uma mulher sensata, muito competente para o fazer feliz e criar os filhos. Mas ele nunca se refez do seu gesto impensado e acabou por se tornar um alcoólico, que tratava mal a mulher e os filhos. Jean-Christophe era o mais velho e, aos 6 anos, começou a ter de tomar conta dos irmãos mais novos, para que a mãe pudesse ir trabalhar e ganhar algum dinheiro para sobreviverem.
No início do segundo livro “A Manhã”, morre o velho Jean-Michel, o avô de Jean-Christophe, a única pessoa que ainda metia algum juízo na cabeça do filho. Assim, este começou a beber cada vez mais e a gastar os parcos recursos da família em álcool, acabando por morrer. Assim, Jean-Christophe viu-se “chefe de família” aos 15 anos de idade.
No terceiro livro “O Adolescente” encontramos Jean-Christophe a crescer e a tornar-se um homem, sem direito a gozar a sua adolescência, porque tinha de ganhar para sustentar a família. Os irmãos acabaram por deixar a casa e seguir outras profissões e ele viu-se como único responsável pela sua mãe. Felizmente, era já um exímio pianista e dava aulas particulares para ganhar dinheiro.
Um aspeto a realçar é que, a partir do segundo livro, os títulos dos capítulos começam a basear-se nos amores que iam despontando na vida de Jean-Christophe. Como os outros adolescentes, apaixonou-se diversas vezes. Foram amores sempre diferentes, mas que o ajudaram a amadurecer. É muito interessante acompanhar estes amores do protagonista, como começaram, como evoluíram e como acabaram e, certamente, todos os leitores vão encontrar nestes amores algo da sua própria adolescência e juventude.
Uma das cenas mais deliciosas deste livro é a estreia da primeira sonata escrita por Jean-Christophe quando tinha 6 anos de idade e lhe valeu ser nomeado “pianista oficial” do Grã-Duque e ficar a receber uma tença que, infelizmente, o pai esbanjava, enquanto viveu. A forma como a família preparou o acontecimento, a execução sublime do jovem pianista, o aplauso do público e da família real, os disparates que fez pelo seu natural acanhamento de criança e a forma como o acontecimento acabou com Jean-Christophe a ser castigado pela família pelas vergonhas que lhes fez passar estão narradas de uma forma muito realista que deixam qualquer leitor empolgado. Aliás, toda a escrita de Romain Rolland nesta obra épica é realista, romântica, simples e corrida, tornando a leitura fácil e muito agradável.
Espero uma oportunidade para ler os restantes quatro volumes desta saga, que narra mais do que a vida de um pianista dotado, mas humilde como pessoa, que sempre lutou pela justiça e pela verdade, numa fase importante da Europa, que foi a viragem para o século XX. Diz o autor na introdução: “O dever que me impus, em Jean-Christophe, numa época de decomposição moral e social da França, era despertar o fogo das almas que jazia sob as cinzas. (…) Desejava congregá-las ao apelo e em torno de um herói que se tornasse o seu chefe”. Penso que o conseguiu.