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Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra de grandes escritores, galardoados com o Prémio Nobel de Literatura ou não, minhas recensões de livros, textos de minha autoria e notícias literárias

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Baiôa sem data para morrer

Vibarao, 30.08.22

Baioa Sem Data Para Morrer.jpg

Comentário ao livro “BAIÔA SEM DATA PARA MORRER” de Rui Couceiro

Desta vez, começo pelo fim e digo que foi um livro que me deu bastante prazer ler, por vários motivos. Tem uma escrita ligeira e levemente irónica, mas sem pretensões de ter graça só por ter. Deixa o leitor bem-disposto, sem procurar ser engraçada. Os capítulos são muito curtos, como se fossem uma recolha de crónicas publicadas num qualquer jornal ou revista; também faz lembrar um diário, como se o protagonista todos dias à noite se recolhesse no seu cantinho e passasse ao papel as experiências do dia.

No entanto, a história que está por detrás não tem nada de agradável, pois retrata a morte lenta de uma aldeia perdida nas campinas alentejanas. Morte dos seus últimos velhos, dos resistentes à emigração interna e externa, morte das casas, dos jardins, das ruas, até da ponte do rio, o único elo de ligação à civilização. E aqui é que está beleza deste livro de estreia. O autor conseguiu criar um texto vivo com uma história de mortos.

Avançando um pouco sem querer desvendar mais do que o suficiente para não retirar o interesse nos próximos leitores, diria que estamos perante um emigrante de segunda geração que regressa às origens para tentar encontrar a sanidade mental que lhe está a faltar. É um professor cansado de andar de terra em terra, sem poder assentar e tomar raízes, sem conseguir a sua independência, construir uma família. Acaba numa depressão profunda e, cansado de psicólogos, resolve agarrar a oportunidade de lhe surge de voltar à terra se onde os seus pais tinham emigrado para a Capital, tirar um tempo sabático e voltar a residir na casinha que foi dos seus avós.

Um coprotagonista, talvez ainda mais marcante do que o professor, é Joaquim Baiôa, um velho sábio com mais de 80 anos que sonha não deixar morrer a sua terra e luta de todas as formas possíveis contra o impossível, contra o fim irreversível de Gorda-e-Feia, uma aldeia do interior mais profundo, para lá do Guadiana, onde quase não há internet e quase tudo é mais espanhol do que português, a começar pela rádio e a televisão que se consegue apanhar. Um dos seus sonhos é reconstruir as velhas casinhas em ruínas, para convencer os seus proprietários a regressar.

Mas não são só estas personagens que desfilam pela obra. Todos os residentes são diferentes uns dos outros e são marcantes, desde o taberneiro, que também é barbeiro, ao falso coxo que usa bengala para captar a atenção e o carinho dos outros, à tia Zulmira que é uma mestra na arte de navegar nas redes sociais, sem esquecer a fadista e os serões com o seu canto à janela, o falecido médico que era um cientista e deixou uma tabela onde previa a data da morte de todos os residentes, exceto Baiôa. Eram pouco mais de meia dúzia e irão morrendo, cada um de sua forma, natural, por acidente ou suicídio, mas, como por milagre, na data prevista pelo Dr. Bártolo. Será que Baiôa vai conseguir iludir a morte e viver para sempre? E o professor? Siga o seu interessante percurso e veja como vai conseguir a sua redenção.

É um romance muito interessante, construido, diria, como mosaicos que se vão encaixando uns nos outros de uma forma muito engenhosa que prende o leitor até à última página.

 

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