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Os Meus Nobel

Aqui encontra informação sobre a vida e a obra dos escritores galardoados com o Prémio Nobel de Literatura, minhas recensões de livros, textos literários de minha autoria e notícias literárias

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Assim Falou a Serpente

Vibarao, 02.05.22

Assim falou a serpente.png

Comentário ao livro “ASSIM FALOU A SERPENTE” de Luís Corte Real

Chegou o novo volume da saga de Benjamim Tormenta, o detetive português do oculto de finais do século XIX! Como não podia deixar de ser, encomendei em pré-venda e aguardei ansiosamente a sua chegada. O livro não defraudou as expetativas e, depois de lido sem grande atraso, mas com mais demora do que eu desejava, cá fica a minha opinião.

Assim Falou a Serpente” apresenta-nos um novo conjunto de contos ao género dos que preenchem o volume “O Deus das Moscas Tem Fome”, desta vez cinco, em vez de seis. Um deles é o contributo de um autor convidado, desta vez Luís Filipe Silva, o conhecido autor de ficção científica e fantasia. São três histórias curtas seguidas do texto do convidado, terminando com o prato forte, que é a história que dá o nome ao livro e ocupa metade do volume.

 

No primeiro conto, o herói é Ramanujan, o fiel servo de Tormenta, embora os louros acabem por ser do seu ilustre patrão. Quintino Lousada, proprietário de um modesto jornal, sonha desmascarar Tormenta, facto que dará grande notoriedade e dimensão nacional ao seu pasquim. Por isso, não se vai poupar a esforços para o conseguir. Um seu agente, ex-jornalista despeitado do Diário de Notícias, vai seguir Ramanujan, com o objetivo de descobrir a sua morada; só que ele topou rapidamente a marosca e conduziu-o a um lugar ermo no caminho para Benfica. Podem calcular como os seus esforços foram frustrados de modo rápido e definitivo.

O segundo conto passa-se na nobre cidade do Porto, onde estranhos acontecimentos dignos de Dr. Jekyll e Mr. Hyde vão exigir a intervenção de Benjamim Tormenta, que rapidamente resolve o problema, com a prestimosa colaboração do aventureiro e grande amigo de Eça de Queiroz, o famoso Fradique Mendes, aqui magistralmente transportado para a vida real. E tudo vai terminar no alto da Torre dos Clérigos, num aparatoso combate entre titãs.

Voltamos no terceiro conto à história de Quintino Lousada, que está fechado em sua casa aterrorizado com o momento em que Benjamim Tormenta apareça para concluir o trabalho começado na estrada de Benfica. Apesar do seu espírito de fuinha, gasta uma fortuna para descobrir um segredo do passado de Tormenta que vai destruir a sua reputação para sempre. Para o conseguir, liga-se à Irmandade da Serpente Verde, que está a tentar reimplantar-se na capital portuguesa. Mal sabe ele com quem se foi meter…

Depois da história de Luís Filipe Silva, que consiste numa longa carta onde um inimigo de Tormenta o informa de ter eliminado outro seu inimigo que estava prestes a caçá-lo, porque não queria perder o prazer de ser ele a fazê-lo, entramos na grande história de “Assim Falou a Serpente”.

É uma longa história, esta sim uma vasta novela, diria mesmo um romance com cerca de 250 páginas, uma história ao nível das melhores dos dois volumes da saga já publicados. Benjamim Tormenta embarca num navio da rota do Mediterrâneo, na companhia do seu fiel servo Ramanujan, na sequência de um pedido de ajuda que recebeu do vice-rei do Egipto, para tentar resolver o estranho caso de uma doença desconhecida que nenhum médico consegue identificar e curar, estando a ficar impossível mantê-la em segredo. Tormenta exige ser acompanhado pela sua apaixonada a duquesa Felícia e pela sua “pombinha” Salomé, pois não confia deixá-las em Lisboa, depois desta ter sido vítima de uma tentativa de assassinato. Para complicar a situação, Salomé tem todas as noites estranhos sonhos, nos quais se vê no papel de Bastet, que Tormenta descobre ser uma jovem que teve um papel importante no Egipto, durante graves acontecimentos ocorridos há cerca de 3000 anos. Segue-se uma viagem relativamente calma, à exceção de novas tentativas de assassinato em portos onde o barco faz escala. Nesta fase, a narrativa é um pouco arrastada, mas não se desiludam, porque o melhor está para vir.

Chegam por fim a Alexandria, onde a ação começa verdadeiramente. Assistimos então a uma série de acontecimentos, onde o inesperado, o terror, o sangue, as criaturas inomináveis se sucedem, em aventuras que acontecem a um ritmo alucinante em travessas escuras, túmulos milenares, tempestades de areia, derrocadas, explosões, enfim, situações que vão fazer a delícia dos leitores. Embora as suas dicas sejam sempre úteis, Lamashtu revela-se quase sempre muito pouco colaborativa, por vezes mesmo sabotadora dos esforços de Tormenta e da sua equipa. Será que encontrou pela frente um demónio mais poderoso? Ou não passa de uma cobardolas que foge quando se vê em grande perigo? A certa altura, chega a parecer que prefere desistir, aceitando a morte de Tormenta, embora sabendo que será também a sua própria morte. Certo é que, das quatro pessoas que embarcaram em Lisboa, só duas regressam da mais perigosa missão alguma vez enfrentada pelo nosso bruxeiro. Será que o desfecho foi um êxito ou um fracasso? Quem não voltou e porquê? Mistérios que só descobrirá lendo o livro.

Acredito que Benjamim Tormenta está para durar, que os leitores vão exigir mais e que, brevemente, veremos o detetive do oculto em novas e emocionantes aventuras.

 

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