André topa-tudo no país dos gigantes
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“André topa-tudo no país dos gigantes” de António Torrado
André é um recém-nascido, dotado de uma extrema lucidez e que nos dá conta das suas impressões acerca do mundo e das pessoas, transportando-nos para um fabuloso campo de hipóteses.
Quando se mete na cabeça de um cientista que os bebés podem nascer já instruídos, a falarem de História, de Astronomia e outras ciências, como velhos sábios, tudo passa a ser possível. Os Mouratos, que são uma família igual a tantas outras, sujeitam-se à experiência. Mal sabem eles no que se meteram!
Henriqueta tem 35 anos, é mãe de Irene e de Filipe, e está à espera de um bebé que se vai chamar André. O pai, João Mourato, é desenhador de arquitetura, tem 40 anos, mas está desempregado. A família vive só do rendimento da loja de flores de Henriqueta com algumas dificuldades.
Quando ainda faltavam uns meses para André nascer, surge na história o Dr. Samuel Queiroga, um biólogo, psiconeurólogo e matemático de 45 anos, que consegue aliciar a família Mourato a participar na sua mais recente experiência: dotar um recém-nascido de um elevado nível de conhecimentos, adquirido ainda no período pré-natal. Um pouco contra sua vontade, Henriqueta submete-se a uma série de sessões em que é ligada a uma parafernália de fios e de aparelhos.
Quando André nasce, todos, especialmente o Dr. Queiroga, estão ansiosos por ver o resultado da experiência. Mas André revela-se uma criança igual a qualquer outra. É uma desilusão. O Dr. Queiroga abandona o país, mas volta algum tempo depois com a Drª Vânia Voltanvinganvalgan, uma cientista de um país dos Balcãs de 36 anos e sua antiga aluna, que está a conduzir uma experiência semelhante.
A Drª Vânia faz uma série de experiências com André, aparentemente inconclusivas. Volta ao seu país, mas regressa alguns meses depois toda ufana a vangloriar-se de ter conseguido onde o Dr. Queiroga tinha falhado: os jornais falam dela e da menina acabada de nascer que fala e mostra ser uma autêntica enciclopédia ambulante. O Dr. Queiroga desconfia que ela conseguiu roubar conhecimentos nas experiências que tinha feito com André, mas não pode provar nada e fica desolado. André continua a mostrar-se um bebé perfeitamente normal.
Mas a verdade era outra: André falava muito bem, era extremamente inteligente e sabia tudo sobre todas as matérias. Só que se recusava a falar diante de estranhos. Pouco a pouco, os membros da família vão conhecendo o segredo, mas preferem calar-se, porque não querem ver a sua vida vandalizada pelos jornais, cientistas, curiosos, etc.
O pior é que a situação se complica. André é raptado e a polícia judiciária, através do inspetor Gouveia, aparece metida no caso. Uns estranhos que falam português com sotaque estrangeiro são vistos várias vezes a rondar André e julga-se que terão sido eles os raptores. Afinal, são agentes de uma organização internacional que se dedica a evitar que os grandes avanços na ciência venham a cair nas mãos dos criminosos.
Mas quem raptou André e com que objetivo? Com a ajuda de D. Hortência, uma velha bisbilhoteira que vigia da sua janela tudo o que se passa nas casas vizinhas com os binóculos do seu falecido marido capitão da Marinha, os raptores são apanhados, o seu segredo descoberto e André volta para o seio da família.
Acreditem que vão ficar muito surpreendidos com a identidade dos raptores e o motivo do rapto. Mas descansem que eles nunca quiseram fazer mal à criança e iriam devolvê-la à família depois de conseguirem cumprir os seus objetivos…
A narrativa desenrola-se num ritmo ágil, alternando momentos de suspense com episódios de humor, criando uma experiência de leitura envolvente, tanto para jovens como para adultos. Como poderão constatar lendo o livro, André é a personificação da coragem e da astúcia infantil. Apesar de ser pequeno face à imensidão do novo mundo, nunca se deixa intimidar pelas adversidades e tem um papel decisivo na condução da história.
Entre os temas centrais do livro, sobressaem o valor do engenho e da coragem perante o desconhecido, a importância da união dentro da família e o poder transformador da imaginação. A obra explora também, de forma subtil, questões sobre a diferença, o respeito e a superação dos próprios limites, incentivando o leitor a olhar para os desafios com criatividade e otimismo.
O texto é marcado por diálogos vivos e descrições pormenorizadas, que tornam as situações emocionalmente cativantes. O humor está sempre presente, seja através de trocadilhos, situações caricatas ou a astúcia de André perante o novo mundo em que acaba de entrar.
"André topa-tudo no país dos gigantes" é um convite à aventura, capaz de despertar nos leitores de todas as idades o desejo de não se deixar vencer pelas contrariedades e acreditar no poder da imaginação. A obra confirma António Torrado como um dos grandes nomes da literatura portuguesa para crianças e jovens, oferecendo uma narrativa que, para além de entreter, educa e inspira.
Uma leitura recomendada para quem procura uma história leve, criativa e cheia de ensinamentos sobre coragem, amizade e resiliência.