A Anomalia

Comentário ao livro "A ANOMALIA" de Hervé Le Tellier
Este romance apresenta-nos uma história muito atual e muito oportuna, escrita de uma forma inovadora e algo surpreendente.
No dia 10 de março de 2021, um avião que fazia a viagem de Paris a Nova Iorque entra subitamente numa tempestade gigantesca, invulgar naquela altura do ano e não referenciada na carta meteorológica. Embora com danos, consegue aterrar no aeroporto JFK. No dia 24 de junho de 2021, aparece subitamente no mesmo local uma duplicação do mesmo voo, afirmando acabar de sair da mesma tempestade. Perante o insólito da situação, é desviado para uma base aérea americana para averiguações.
Os especialistas convocados para estudar tal fenómeno nunca visto, só veem três hipóteses igualmente inéditas e (até agora) do domínio da ficção científica: um "buraco de verme", uma fotocópia 3D ou um produto de inteligência artificial. Esta é, de todas, a mais plausível, mas levanta a questão: será que vivemos num mundo virtual, que nós e tudo o que nos rodeia não passamos de programas informáticos? Alguma inteligência terrestre ou alienígena nos está a testar neste momento?
Mas o mais interessante neste livro é o confronto entre os tripulantes e passageiros da versão a que podemos chamar "março", com os da versão "junho". Não esqueçamos que os primeiros têm mais três meses de vida do que os segundos, durante os quais muitas coisas aconteceram. Como será o confronto entre os originais e os seus duplicados? O autor mostra aqui como somos um produto da sociedade, como não podemos fugir ao bom e mau que programa a nossa vida. A reação de cada par vai ser condicionada pela sua profissão, pelas doenças, mortes, separações ou novos amores que, entretanto, ocorreram, pelos familiares, etc. Como diz a análise do "Le Point" este livro é um retrato da realidade contemporânea: um mundo anómalo, absurdo e desequilibrado.
Outra forma de ver este enfrentamento entre as duas versões de si próprio pode ser a questão: se tivesse oportunidade de voltar atrás no tempo e mudar algo no meu passado, fá-lo-ia? E, se o fizesse, teria alguma garantia de um futuro melhor? Algumas personagens optaram por manter a sua versão "março", outras preferiram agarrar a nova oportunidade "junho"; umas ganharam com isso, outras limitaram-se a adiar um pouco o inevitável.
Gostei da forma como o autor desenvolveu a trama: na primeira parte apresenta a situação e caracteriza as personagens; na segunda apresenta a anomalia e desenvolve a investigação para a explicar; e na terceira faz o confronto entre cada personagem e o seu duplo, não sendo, na minha opinião, a que mais capta a atenção do leitor, mas a mais interessante, no aspeto sociológico e da mensagem que o autor pretende transmitir. Não desista, porque o final vai ser uma grande surpresa e a confirmação da tese do livro, como a cereja no topo do bolo.
Diz na sinopse e muito bem que é, simultaneamente, "um page-turner, um thriller e um romance literário que explora aquela parte de nós que... nos escapa". Vale a pena dedicar algum tempo a ler esta obra que venceu o prestigiado Prémio Goncourt 2020 e, diga-se, com muito mérito.